1
Mar à beira do nada,
Que se mistura ao nada,
Para melhor saber o céu,
As praias, os rochedos,
Para melhor os receber.
2
Algum dia brincaremos,
Por uma hora que seja,
Nada mais que alguns minutos,
Oceano solene,
Sem que tenhas tu esse ar
De outra coisa te ocupar?
3
Sabes de mais que todos te preferem,
Que mesmo aqueles que te deixaram
Nos trigos te reencontram,
Na erva te procuram,
Na pedra te escutam,
Sem que jamais consigam agarrar-te.
4
Tem qualquer coisa a ver
Com a noção de Deus,
Água que já não és água,
Poder desprovido de mãos e de instrumentos,
Peso sem emprego
Para quem o tempo não existe.
5
Sejamos justos: sem ti
De que me servia o espaço
E as rochas de que serviam?
6
Não temos margens, na verdade,
Nem tu nem eu.
7
Ouve bem o que faz
A pólvora explodindo.
Ouve bem o que faz
O frágil violino.
8
Sei bem que há outros mares,
Mar do pescador,
Mar dos navegadores,
Mar dos marinheiros e guerreiros,
Mar dos que querem morrer no mar.
Não sou um dicionário,
Falo só de nós dois
E quando digo o mar
É sempre o de Carnac.
9
As mesmas terras sempre
A teres de acariciar.
Jamais um corpo novo
Que possas ensaiar.
10
As profundezas, que procuramos,
Serão as tuas?
As nossas têm poder de chama.
11
Demasiado largo
Para ser cavalgado.
Demasiado largo
Para ser estreitado.
E flácido.
12
Se acaso acreditas no valor dos sons
Deves sentir-te arrepiar
Só de ouvir este nome de mar.
13
Tu vais e vens
Mas dentro de limites
Fixados por uma lei
Que não chega a ser tua.
Nós temos em comum
A experiência do muro.
Guillevic
Carnac, fragmentos (1961)
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Uma casa branca na praia
Manhã em um lugar lindo. Uma praia vazia, a natureza exuberante. Céu azul, mar verdinho, areia, mata. Uma casa branca em frente ao mar, tão iluminada. Era onde estávamos.
Eu, deitada encolhida no sofá, no teu colo, morrendo de sono. Quase dormindo, mal consigo manter os olhos abertos, mas nem é preciso, prefiro fechá-los e só te sentir. Meu braço sobre o teu. Tudo é terno.
No deck de madeira observo a bela paisagem. Ele chega e segura minha mão. Você surge e segura a outra. Saímos os três pela areia da praia, felicidade pura. Luz.
No meu quarto tinha uma carta pregada na parede ao lado da cama. Não assinada, era tua. As palavras estavam quase apagadas e eu não consegui ler. Era uma carta de adeus?
De noite, deitados no chão da varanda, ele me mostrou as constelações. Eu não enxergava bem as estrelas, pois estava sem óculos. O melhor era a brisa sobre o corpo.
Sonho que me fez acordar nesta manhã com cheiro de maresia e desejo de brisa.
domingo, 20 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
You are welcome to elsinore
Entre nós e
as palavras há metal fundente
Mário Cesariny
entre nós e
as palavras há hélices que andam
e podem
dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo
de nós o mais útil segredo
entre nós e
as palavras há perfis ardentes
espaços
cheios de gente de costas
altas flores
venenosas portas por abrir
e escadas e
ponteiros e crianças sentadas
à espera do
seu tempo e do seu precipício
Ao longo da
muralha que habitamos
há palavras
de vida há palavras de morte
há palavras
imensas, que esperam por nós
e outras,
frágeis, que deixaram de esperar
há palavras
acesas como barcos
e há palavras
homens, palavras que guardam
o seu segredo
e a sua posição
Entre nós e
as palavras, surdamente,
as mãos e as
paredes de Elsenor
E há palavras
noturnas palavras gemidos
palavras que
nos sobem ilegíveis à boca
palavras
diamantes palavras nunca escritas
palavras
impossíveis de escrever
por não
termos conosco cordas de violinos
nem todo o
sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços
dos amantes escrevem muito alto
muito além do
azul onde oxidados morrem
palavras
maternais só sombra só soluço
só espasmo só
amor só solidão desfeita
Entre nós e
as palavras, os emparedados
e entre nós e
as palavras, o nosso dever falar
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Alvará de demolição
O que precisa nascer
aparece no sonho
buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem
do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.
Adélia Prado
terça-feira, 24 de setembro de 2013
O Dragão
Mamãe contou ao acordar que sonhou comigo:
Eu e ela estávamos andando e encontrávamos um campo cheio de mini passarinhos de todas as cores.
Eram tão pequeninos que pareciam grilinhos, pousados no mato. Chegávamos mais perto e eles vinham para minhas mãos, tão bonitinhos. Mas então, apareceu uma galinha, e começou a bicá-los furiosamente. Que horror! Mamãe logo achou que a galinha confundiu os passarinhos com insetos. Com isso, fomos embora de lá. Seguindo a rua, mama avista uma grande serpente, me mostra. Oh! Na verdade se trata de um grande dragão chinês, voando sob o muro da casa da calçada oposta à que estávamos. Com o espírito protetor, mama me chama para corrermos o mais rápido possível para longe do monstro, mas eu, desobediente, faço justamente o contrário: atravesso a rua em direção ao dragão. Mama gritando pendido para que eu voltasse, mas eu respondo tranquilamente: Eu vou amansar ele. Ao se deparar com o bicho, ele não me ataca. Aliso suas escamas brilhantes e até que o dragão se transforma em um manso gatinho.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Eu queria trazer-te uns versos
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Sua palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para os ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao
vento da Poesia...
como uma pobre lanterna que incendiou!
colhidos no mais íntimo de mim...
Sua palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para os ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao
vento da Poesia...
como uma pobre lanterna que incendiou!
Mario Quintana
Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mario Quintana
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mario Quintana
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
em iídiche
ele fala em russo
[amanha eu posso morrer]
ele não saberá
que nossas vidas são finitas?
ele fala em iídiche
[eu não consigo entender]
sua voz soa como
as notas do piano
ele fala por metáforas
de símbolos indecifráveis
ele não prometeu nada
quer só ser esquecido!
[amanha eu posso morrer]
ele não saberá
que nossas vidas são finitas?
ele fala em iídiche
[eu não consigo entender]
sua voz soa como
as notas do piano
ele fala por metáforas
de símbolos indecifráveis
ele não prometeu nada
quer só ser esquecido!
Assinar:
Postagens (Atom)