sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sexta feira da paixão

Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petrópolis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala pouco,
como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
“Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.”
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde e digo: está lindo,
mas não sei ser engraçada.
“A crueldade é seu diadema…”
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia das vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
é paixão.

Ana C.

terça-feira, 24 de março de 2020

vai fazer 1 ano


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Preamar

Vivo para o amor,
mas isso, hoje em dia, está fora de moda.
E a paixão?
Temo e desejo.
Penetro cuidadosa em seu oceano vermelho
Sinto a delícia da espuma nos pés, tornozelos
Mas logo sou tragada pela intensidade da correnteza. 
Tento manter a cabeça fora d'água, 
e vem uma onda que me submerge por inteira.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Fértil

o sonho do dia 26/10

estávamos numa festa com os amigos. uma piscina grande, árvores, e aquele calor de uma tarde no sertão. os meninos tocavam rock. e eu tava conversando em pé num círculo com o povo, mas de olho em você.
você vinha sorrateiro e rapidamente colocava um punhado de terra na minha cabeça com uma mão e com a outra, me encharcava toda derramando água com um regador!
eu mergulhei na piscina pra tirar a terra e corri atrás de você, que se esgueirava em meio as árvores.
eu estava de biquíni e shortinho, descalça, completamente molhada, sorrindo e brilhando ao sol. meus cabelos estavam compridos e cacheados, como quando eu era adolescente, e molhados os cachos pingavam gotas na cintura.
te vi distraído de costas, e fui silenciosa com meu punhado de terra na mão, tentar fazer o mesmo, mas não consegui. você é alto, e tive que dar um saltinho pra alcançar teu cocuruto. a terra foi pro lado e água derramou... você fugiu e todos riram de mim.
corri em teu encalço, e você entrou num galpão, distante do resto da festa. estava vazio.
nos entreolhamos silenciosamente: agora só havia nós dois.
sentamos num banco de alvenaria e nos abraçamos. teu corpo quente, meu corpo molhado. beijei teu pescoço, te cheirei... cheiro no cangote, tem coisa melhor?
não lembro mais... o sol já descia, a festa acabava, tínhamos que ir embora...
acordei.
...
o que você fez?
plantaste algo na minha cabeça? eu não consegui fazer o mesmo contigo, não é?
ou eu era vaso? semente?
erva daninha? árvore?
fincou raízes, ainda não murchou
mas aqui a seca tá grande,
a chuva ainda não chegou.
foi flora da caatinga? ao menor sinal de chuva revive
ainda brotará?
 

sábado, 26 de outubro de 2019

Sonhei contigo 

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

27 de março

A ultima vez que te vi, eu te disse que ia embora.
E você, fez uma cara
Como se eu tivesse dito que fui acometida de uma doença fatal, altamente contagiosa.
E foi se afastando de mim.
Eu, que queria justamente o oposto, não soube reagir.
O que aconteceu? Ainda me pergunto.
Você tem medo de mim?
E porque, às vezes, parecia tão ...
O olhar, breves mas intensos abraços, tua voz ao pronunciar meu nome...
E disse que iria me visitar. Eu acreditei.
Mas já deves ter me matado, doença altamente fatal, né ...
Eu acreditei.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Espinhos

espinhos
rasgaram minha pele
cortaram o meu rosto
espetaram os meus dedos

querer andar descalça na caatinga
esquecer o que a mãe ensinou
largar as alpercatas no alpendre
queimar o pé na pedra quente

espinhos
eu já nem mais os vejo
arranquei como pude
e ainda doem os dedos

botar os pés na terra vermelha
caminhar onde o barro rachou
colecionar besouros cascudos
catar umbu ainda verde

espinhos
mandacaru favela
macambira facheiro
faço deles meus brinquedos

subir bem lá no alto do lajedo
desobedecer o que o pai ordenou
gritar aos quatro cantos meus desejos
deixar se ver por toda gente

espinhos
se enroscam em minha volta
fazem sangrar meu corpo
É o que dá viver sem medo


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Fevereiro

Era fevereiro
E você não viu
Meu olhar urgente
Meu corpo febril
Meu cheiro de cio

Queria que o mês
se estendesse eternamente
Que o carnaval não chegasse
o calor não passasse

Mas o carnaval chegou
E foi tão sóbrio e casto
E por isso infernal
Preferia a quaresma
Com samba dominical

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

eu preciso de tuas palavras

fala

me escreve

vêm
sussurra em meu ouvido

preciso

terça-feira, 20 de agosto de 2019

quando o dia virou noite

uma mancha escura no céu
da chama ardente
queimando troncos
queimando corpos
tapando as vias
de respiração
tapando o sol
tapando os dias
mas fazendo ver
o que não se queria
a destruição
mortificante
da nação