terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Amavisse
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Hilda Hilst
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Cantos novos
Diz a lua: "Eu, sede de luzeiros."
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.
Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.
Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.
Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.
Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).
Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.
Federico Garcia Lorca
quinta-feira, 29 de maio de 2014
A outra cidade
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Noites sem nome
segunda-feira, 3 de março de 2014
se apague no claro do dia
só porque um dia antes
era assim que acontecia.
Dorme teu sono, acorda dissonante,
sem saber se eras tu
ou tua sombra
que do sonho emergia.
Lava teus olhos, cospe na pia.
Enquanto dormias,
o espelho estava acordado.
Abre a janela, espia:
quem sabe o mundo
ainda está do outro lado.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Carnac (fragmentos)
Mar à beira do nada,
Que se mistura ao nada,
Para melhor saber o céu,
As praias, os rochedos,
Para melhor os receber.
2
Algum dia brincaremos,
Por uma hora que seja,
Nada mais que alguns minutos,
Oceano solene,
Sem que tenhas tu esse ar
De outra coisa te ocupar?
3
Sabes de mais que todos te preferem,
Que mesmo aqueles que te deixaram
Nos trigos te reencontram,
Na erva te procuram,
Na pedra te escutam,
Sem que jamais consigam agarrar-te.
4
Tem qualquer coisa a ver
Com a noção de Deus,
Água que já não és água,
Poder desprovido de mãos e de instrumentos,
Peso sem emprego
Para quem o tempo não existe.
5
Sejamos justos: sem ti
De que me servia o espaço
E as rochas de que serviam?
6
Não temos margens, na verdade,
Nem tu nem eu.
7
Ouve bem o que faz
A pólvora explodindo.
Ouve bem o que faz
O frágil violino.
8
Sei bem que há outros mares,
Mar do pescador,
Mar dos navegadores,
Mar dos marinheiros e guerreiros,
Mar dos que querem morrer no mar.
Não sou um dicionário,
Falo só de nós dois
E quando digo o mar
É sempre o de Carnac.
9
As mesmas terras sempre
A teres de acariciar.
Jamais um corpo novo
Que possas ensaiar.
10
As profundezas, que procuramos,
Serão as tuas?
As nossas têm poder de chama.
11
Demasiado largo
Para ser cavalgado.
Demasiado largo
Para ser estreitado.
E flácido.
12
Se acaso acreditas no valor dos sons
Deves sentir-te arrepiar
Só de ouvir este nome de mar.
13
Tu vais e vens
Mas dentro de limites
Fixados por uma lei
Que não chega a ser tua.
Nós temos em comum
A experiência do muro.
Guillevic
Carnac, fragmentos (1961)
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
You are welcome to elsinore
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Eu queria trazer-te uns versos
colhidos no mais íntimo de mim...
Sua palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para os ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao
vento da Poesia...
como uma pobre lanterna que incendiou!
Canção do dia de sempre
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mario Quintana
sexta-feira, 12 de abril de 2013
domingo, 7 de abril de 2013
Alongo-me
Guimarães Rosa
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Intenso brilho
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
Aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão.
.
Adélia Prado
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Romance sonâmbulo
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.
(...)
Lorca
sábado, 6 de novembro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Quarto Soneto de Meditação
Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.
Vinicius de Moraes
