terça-feira, 21 de julho de 2020

Na real

Ah, eu só queria saber se...
você achava mesmo que
minha presença era válida

Não,
não

Eu queria saber se
você
hoje,
ainda, ou
algum dia, que seja

me desejou
ardentemente
queria me beijar
inteira
quase morreu
de saudade
fica insone
quase enlouquece
dedicou-me duas músicas
leu os poemas na tela
achou os escritos nas paredes
chorou escondido
ficou revoltado
me odiou por instantes
tentou resoluto esquecer-me
quase se achava exitoso
sonhou comigo três vezes
considerou viajar por horas
planejou tantas palavras
imaginou minhas respostas
precisa relembrar meu cheiro
me ver
antes de morrer
antes do mês acabar
amanhã






segunda-feira, 20 de julho de 2020

Maldade

Maldade é a gente
não se ver nunca mais


Chico Alvim

terça-feira, 14 de julho de 2020

outro sonho

nesse, eu te ligava.
mas não lembro mais o que te dizia.
vai ver só ouvir tua voz, sei lá...
e você me respondia
acordei
querendo te ligar
pra te perguntar
o que era que me dizias...


terça-feira, 16 de junho de 2020

Paixão

É mergulhar em vermelho


domingo, 14 de junho de 2020

Eu tive febre

Ele disse calma
E só respirar fundo...

Eu tou com febre

E quem consegue?
Com dez mil mortos
Tentando entrar pela janela

Ouviu? Febre
Esse ruído chiado é minha respiração
E você quer salvar o mundo
E eu também, mas não consigo
Quero ao menos não surtar
Passar a febre

Ele disse faz ioga
Toma aquele comprimido...

Porque não morre o presidente?
Porque ele ainda tá vivo?
(Febre)
Ninguém vai envenená-lo?
Atirar em sua testa?

Eu queria ao menos levantar
Que a cabeça parasse de latejar
Já são mais de 30 mil
Fantasmas espiando pela janela
E aqui, absurdamente
O prefeito constrói um novo cemitério
E eu mergulho
numa piscina vermelho sangue

Você sussurra vida em meus ouvidos
Descongela minha paralisia
Tua voz pronuncia meu nome
Me sacode do torpor, e diz:

quarta-feira, 6 de maio de 2020

tu queres apagar apagar apagar meu desejo que te assusta
meu olhar se perde
a cabeça pesa
imobiliza o meu corpo
apagar
meu corpo borbulha lava
escorre suor com a mão fria

eu tive febre
38,5 - febre
calafrios
e tremores
só pra te dizer
antes que seja tarde...
mas você nem quer saber!

o medo veio sufocar
entupir minha garganta
o medo veio estreitar
o espaço entre as costelas
fazer respiração chiar
o olhar vagar sem pouso

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sexta feira da paixão

Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petrópolis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala pouco,
como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
“Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.”
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde e digo: está lindo,
mas não sei ser engraçada.
“A crueldade é seu diadema…”
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia das vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro,
e te raptar não sei como dessa aflição de março,
bem que aproveitando maus bocados para sair do
esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
é paixão.

Ana C.

terça-feira, 24 de março de 2020

vai fazer 1 ano


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Preamar

Vivo para o amor,
mas isso, hoje em dia, está fora de moda.
E a paixão?
Temo e desejo.
Penetro cuidadosa em seu oceano vermelho
Sinto a delícia da espuma nos pés, tornozelos
Mas logo sou tragada pela intensidade da correnteza. 
Tento manter a cabeça fora d'água, 
e vem uma onda que me submerge por inteira.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Fértil

o sonho do dia 26/10

estávamos numa festa com os amigos. uma piscina grande, árvores, e aquele calor de uma tarde no sertão. os meninos tocavam rock. e eu tava conversando em pé num círculo com o povo, mas de olho em você.
você vinha sorrateiro e rapidamente colocava um punhado de terra na minha cabeça com uma mão e com a outra, me encharcava toda derramando água com um regador!
eu mergulhei na piscina pra tirar a terra e corri atrás de você, que se esgueirava em meio as árvores.
eu estava de biquíni e shortinho, descalça, completamente molhada, sorrindo e brilhando ao sol. meus cabelos estavam compridos e cacheados, como quando eu era adolescente, e molhados os cachos pingavam gotas na cintura.
te vi distraído de costas, e fui silenciosa com meu punhado de terra na mão, tentar fazer o mesmo, mas não consegui. você é alto, e tive que dar um saltinho pra alcançar teu cocuruto. a terra foi pro lado e água derramou... você fugiu e todos riram de mim.
corri em teu encalço, e você entrou num galpão, distante do resto da festa. estava vazio.
nos entreolhamos silenciosamente: agora só havia nós dois.
sentamos num banco de alvenaria e nos abraçamos. teu corpo quente, meu corpo molhado. beijei teu pescoço, te cheirei... cheiro no cangote, tem coisa melhor?
não lembro mais... o sol já descia, a festa acabava, tínhamos que ir embora...
acordei.
...
o que você fez?
plantaste algo na minha cabeça? eu não consegui fazer o mesmo contigo, não é?
ou eu era vaso? semente?
erva daninha? árvore?
fincou raízes, ainda não murchou
mas aqui a seca tá grande,
a chuva ainda não chegou.
foi flora da caatinga? ao menor sinal de chuva revive
ainda brotará?