terça-feira, 20 de agosto de 2019

quando o dia virou noite

uma mancha escura no céu
da chama ardente
queimando troncos
queimando corpos
tapando as vias
de respiração
tapando o sol
tapando os dias
mas fazendo ver
o que não se queria
a destruição
mortificante
da nação

terça-feira, 6 de agosto de 2019

quando chegarei?

Eu fui embora
mas ainda não cheguei
a lugar algum.

E, eu sei, já passou da hora
não é racional
não há como explicar

Querer retroceder, mas
não ter como voltar
refaço em meus sonhos
aquilo que não há .

eu nunca vou saber?
decerto já me eliminasse
do pouco que havia
enquanto eu rasgo a pele
insone, enlouquecida
esperando um sinal
que sentisses
tanto quanto eu


sexta-feira, 12 de julho de 2019

é. hoje eu sonhei contigo.
eu queria te explicar,
você queria fugir

desculpa, essa minha maluquice não é de hoje, eu dizia
espera, tá acontecendo de novo, mas... [não me olha assim] eu estendia o braço enquanto você saía
você sabe? entende?
você parou. eu ia até lá e dizia sorrindo: vai ficar tudo bem (e as lágrimas rolando no rosto
você sorriu. pareceu que enfim compreendia.
quem sabe, até sentia. me olhou daquele jeito
Seus olhinhos , sobrancelhas...
Segurou o meu rosto, não como da última vez, mas com as duas mãos. Se aproximou. Encostou tua testa na minha. Depois me abraçou,me aconchegou em teu peito. Era tudo que podia
Consolo
Você tinha pena? Compaixão
Com- paixão?
De mim? De nós dois?


domingo, 30 de junho de 2019

Xote da madrugada

Disseste lírio
O cheiro em meu pescoço
Disseste vinho
Do meu gosto em tua boca
Disseste lua
Minha pele sob a roupa

Tuas mãos morenas na minha cintura
Deslizavam em sua ascendente curva
Quentes e fortes apertavam minha coxa
E eu já ficando de vista turva
Não me continha, te agarrava feito louca
Me deixavas quase rouca, me fazias suspirar
E o resto eu não posso mais falar

30 de junho, 3h28.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

estou cansada

terça-feira, 4 de junho de 2019

Delírio

Te olhar
como quem sente
Te beijar
como quem come
Te agarrar
como quem goza
E gozar
como quem nunca
Cochilar
como quem sonha
E sonhar
como quem ama
Te amar
como quem não pode
Não poder
como quem parte
E partir
como quem não volta
E voltar
como quem não foi
Escrever
como quem vive
Confessar
como quem morre

4/6

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A morte me pegou desprevenida.
Me fez arrepender do adiar.
A morte me pegou, deu um: se liga,
que nunca digo o dia de chegar.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Sobre o sentir

Sinto tanto,
sinto muito.

E o que fazer com tanto sentir?

Anestesiar?
Deixar fluir?
Tentar entender?
Não permitir?

Sinto tanto,
sinto muito.

É que só sei ser assim.
Mas disfarço, me contenho
pra que doa só em mim.
 


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Páscoa, pessach

Renascimento, libertação

Sobre o dançar

Sozinha o dia inteiro que já findava, dancei exaustivamente as mais dramáticas músicas como se praticasse um auto exorcismo. E durante umas leituras noturnas, me vieram centelhas do porque que eu danço.
Anteontem mesmo, mami comentou ao ver um balé na tv: sua irmã sempre gostou de teatro, mas você sempre preferiu dança. É verdade. Ainda hoje me lembro e reproduzo os passinhos frenéticos do foxtrot, meu ritmo preferido da dança de salão, minha primeira e breve experiência aos 12 anos, ocasionada pela recusa do treinador de que eu participasse do time de futsal por ser menina. Adolescente e com mania de Egito antigo fui atrás da dança do ventre. Mas foi já na universidade que me encontrei na dança de verdade. A dança moderna me ensinou sobre um corpo forte e flexível. O oposto da delicadeza frágil do balé clássico, deveríamos expressar toda a nossa potência - pisadas firmes, movimentos duros e precisos, marcados feito compasso e esquadro. Abdome, pernas e braços que se expandiam e jorravam energia, como se deles partissem feixes de luz. Depois, com a dança contemporânea, meu corpo já sabia mover, mas o desafio maior foi a liberdade dada pra criar o movimento. Foi proposta uma coreografia onde tínhamos que desenvolver um solo que evocasse nossas repulsas e medos, nossas loucuras secretas, para apresentar num espetáculo. Na minha, eu levava as mãos aos ouvidos, para silenciar as vozes do pensamento que não me deixavam sossegar. Num trecho da coreografia, todas as integrantes deveriam, uma por uma, ir à beira do palco e gritar do modo mais estridente possível. Mas meu grito foi mudo - abri a boca de onde só escapou o silêncio. Por isso a tentativa da adolescência num grupo de teatro foi falha. O problema, desde cedo, é falar. E acho que de tanto calar, meu corpo se especializou em tentar dizer tudo aquilo que estava indizível - dançando, ou por vias mais dolorosas (quando fica incontrolável - os espasmos, tremores, palpitações...). E assim, também se aperfeiçoa o buscar e sentir: cada olhar, cada mínimo toque, se reveste de poderosa intensidade.
*Ah, já quase esquecia. A coreografia foi montada e nos apresentamos duas vezes num teatro pequeno. O nome do espetáculo: Histeria.

**Será que algum dia tu ainda me verás dançar?