terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Amavisse

II
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro


Um arco-íris de ar em águas profundas.


Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.


Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.


Hilda Hilst

sábado, 17 de novembro de 2018

sede II

eu abri a porta
da minha casa
pra te dar água
pra curar tua sede
mas eu sabia
e tu sabia
que não era só isso
que a gente queria

naquele dia tão quente
sol fervente
e meu corpo a desejar
você apareceu de repente
tão carente
que deixei você entrar
...
pela porta da minha casa
pelos segredos do meu corpo
em um rodopio louco
...
eu já pressentia
ao andar pela cidade
teu olhar que me seguia
onde quer que eu fosse andar
e onde tu tava eu ia
enganando a realidade
mas tentava disfarçar

sede

"traga-me um copo d'água eu tenho sede"
mas só com a água ela não irá cessar
traga-me um copo d'água e venha junto
que no teu corpo eu quero me fartar

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Cardiosurrealismo

Arranquei meu coração fora
Não dava mais não...
Arremessei na calçada empoeirada
Depois a velha o varreu,
foi embolando pra pista junto com o lixo
Os carros passavam e o estraçalhavam
Deixando toda a cidade com um rastro
vermelho de mim.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

O guardião

Eu estava caminhando no interior de uma igreja medieval de pesadas paredes de pedra aparente.
Fui em direção à saída, mas a grande porta de madeira estava fechada e em sua frente lá estava ele: Alto e forte, de cavanhaque, trajando calça preta, sapatos pretos lustrosos, sem camisa, mas com uma enorme capa preta e vermelha, presa ao pescoço por uma corrente dourada. Diminuí o passo e ele perguntou, malicioso: -Adivinha quem eu sou? Olhei rapidamente e vi em sua mão a enorme chave da igreja, e exclamei: -Ah, você é Exu Tranca Rua! E ele abriu um grande sorriso em resposta.
E então, seguimos conversando sobre seu importante ofício.

domingo, 1 de abril de 2018

Debaixo dos caracóis

E de repente ficamos encurralados
naquele espaço estreito e quente
frente à frente
E você se aproximou ainda mais de meu rosto
-centímetros
E minha respiração acelerando
Puxei teu rosto pros meus ombros
Acariciei os teus cachos
desci para tuas costas desnudas
E corri minhas mãos longamente
Enquanto descasava em teu pescoço

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O novelo

Há um novelo de lã enganchado na minha garganta
Por isso, acordo de madrugada
Por isso tusso, sufoco, rouca
E minha voz, fraca

Preciso arrancá-lo
Puxar lentamente
a ponta do fio pela boca
suportando a dor arranhar
Ou tudo de uma vez escarrar
numa tosse violenta

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

apaixonar-se


Porque a paixão existe pra isso:
pra aprendermos.

e ver tudo com colorido e surpresa, que tudo muda, e é novidade
não cansa, não, tá
nem tudo precisa de respostas,
essas talvez a gente nunca tenha
mas nunca deixar de perguntar

*não esquecer do olhar faiscante

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

prece

para que eu não esqueça a poesia de cada dia
para que não permita que o meu olhar fique opaco
para ser forte diante da saudade
e enfrentar a cotidianidade mesmo com medo
e não deixar de ter esperança após ver o jornal
não esquecer que é necessário sorrir, não é crime
que o trabalho sem prazer é inútil
e não faz mal degustar o carnaval

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Ode à vagarosidade

Ode a vagarosidade

Sou lerda 
Sempre serei lerda
Enquanto o mundo urge 
e vocês correm desesperados 
Eu penso em mil poemas 
Inúteis poemas 
Para esse mundo prático 
Que não degusta os prazeres de viver o instante 
E não vê e não sente 
Juntem-se a mim os desencaixados 
Podem gritar, me demitir 
A vagarosidade é minha rebeldia 
***
Mil poemas inúteis 
Úteis para evitar o vômito literal 

Você chegou a perceber o meu olhar faiscante 
por trás das lentes do óculos? 

Desculpa aí, mas não nasci pra ser mártir, não.
Nasci pra o prazer!
Que o caos reine livremente em meu lar.