II
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Hilda Hilst
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
sábado, 17 de novembro de 2018
sede II
eu abri a porta
da minha casa
pra te dar água
pra curar tua sede
mas eu sabia
e tu sabia
que não era só isso
que a gente queria
naquele dia tão quente
sol fervente
e meu corpo a desejar
você apareceu de repente
tão carente
que deixei você entrar
...
pela porta da minha casa
pelos segredos do meu corpo
em um rodopio louco
...
eu já pressentia
ao andar pela cidade
teu olhar que me seguia
onde quer que eu fosse andar
e onde tu tava eu ia
enganando a realidade
mas tentava disfarçar
da minha casa
pra te dar água
pra curar tua sede
mas eu sabia
e tu sabia
que não era só isso
que a gente queria
naquele dia tão quente
sol fervente
e meu corpo a desejar
você apareceu de repente
tão carente
que deixei você entrar
...
pela porta da minha casa
pelos segredos do meu corpo
em um rodopio louco
...
eu já pressentia
ao andar pela cidade
teu olhar que me seguia
onde quer que eu fosse andar
e onde tu tava eu ia
enganando a realidade
mas tentava disfarçar
sede
"traga-me um copo d'água eu tenho sede"
mas só com a água ela não irá cessar
traga-me um copo d'água e venha junto
que no teu corpo eu quero me fartar
mas só com a água ela não irá cessar
traga-me um copo d'água e venha junto
que no teu corpo eu quero me fartar
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Cardiosurrealismo
Arranquei meu coração fora
Não dava mais não...
Arremessei na calçada empoeirada
Depois a velha o varreu,
foi embolando pra pista junto com o lixo
Os carros passavam e o estraçalhavam
Deixando toda a cidade com um rastro
vermelho de mim.
Não dava mais não...
Arremessei na calçada empoeirada
Depois a velha o varreu,
foi embolando pra pista junto com o lixo
Os carros passavam e o estraçalhavam
Deixando toda a cidade com um rastro
vermelho de mim.
quinta-feira, 5 de julho de 2018
O guardião
Eu estava caminhando no interior de uma igreja medieval de pesadas paredes de pedra aparente.
Fui em direção à saída, mas a grande porta de madeira estava fechada e em sua frente lá estava ele: Alto e forte, de cavanhaque, trajando calça preta, sapatos pretos lustrosos, sem camisa, mas com uma enorme capa preta e vermelha, presa ao pescoço por uma corrente dourada. Diminuí o passo e ele perguntou, malicioso: -Adivinha quem eu sou? Olhei rapidamente e vi em sua mão a enorme chave da igreja, e exclamei: -Ah, você é Exu Tranca Rua! E ele abriu um grande sorriso em resposta.
E então, seguimos conversando sobre seu importante ofício.
Fui em direção à saída, mas a grande porta de madeira estava fechada e em sua frente lá estava ele: Alto e forte, de cavanhaque, trajando calça preta, sapatos pretos lustrosos, sem camisa, mas com uma enorme capa preta e vermelha, presa ao pescoço por uma corrente dourada. Diminuí o passo e ele perguntou, malicioso: -Adivinha quem eu sou? Olhei rapidamente e vi em sua mão a enorme chave da igreja, e exclamei: -Ah, você é Exu Tranca Rua! E ele abriu um grande sorriso em resposta.
E então, seguimos conversando sobre seu importante ofício.
domingo, 1 de abril de 2018
Debaixo dos caracóis
E de repente ficamos encurralados
naquele espaço estreito e quente
frente à frente
E você se aproximou ainda mais de meu rosto
-centímetros
E minha respiração acelerando
Puxei teu rosto pros meus ombros
Acariciei os teus cachos
desci para tuas costas desnudas
E corri minhas mãos longamente
Enquanto descasava em teu pescoço
naquele espaço estreito e quente
frente à frente
E você se aproximou ainda mais de meu rosto
-centímetros
E minha respiração acelerando
Puxei teu rosto pros meus ombros
Acariciei os teus cachos
desci para tuas costas desnudas
E corri minhas mãos longamente
Enquanto descasava em teu pescoço
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
O novelo
Há um novelo de lã enganchado na minha garganta
Por isso, acordo de madrugada
Por isso tusso, sufoco, rouca
E minha voz, fraca
Preciso arrancá-lo
Puxar lentamente
a ponta do fio pela boca
suportando a dor arranhar
Ou tudo de uma vez escarrar
numa tosse violenta
Por isso, acordo de madrugada
Por isso tusso, sufoco, rouca
E minha voz, fraca
Preciso arrancá-lo
Puxar lentamente
a ponta do fio pela boca
suportando a dor arranhar
Ou tudo de uma vez escarrar
numa tosse violenta
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
apaixonar-se
Porque a paixão existe pra isso:
pra aprendermos.
e ver tudo com colorido e surpresa, que tudo muda, e é novidade
não cansa, não, tá
nem tudo precisa de respostas,
essas talvez a gente nunca tenha
mas nunca deixar de perguntar
*não esquecer do olhar faiscante
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
prece
para que eu não esqueça a poesia de cada dia
para que não permita que o meu olhar fique opaco
para ser forte diante da saudade
e enfrentar a cotidianidade mesmo com medo
e não deixar de ter esperança após ver o jornal
não esquecer que é necessário sorrir, não é crime
que o trabalho sem prazer é inútil
e não faz mal degustar o carnaval
para que não permita que o meu olhar fique opaco
para ser forte diante da saudade
e enfrentar a cotidianidade mesmo com medo
e não deixar de ter esperança após ver o jornal
não esquecer que é necessário sorrir, não é crime
que o trabalho sem prazer é inútil
e não faz mal degustar o carnaval
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Ode à vagarosidade
Ode a vagarosidade
Sou lerda
Sou lerda
Sempre serei lerda
Enquanto o mundo urge
e vocês correm desesperados
Eu penso em mil poemas
Inúteis poemas
Para esse mundo prático
Que não degusta os prazeres de viver o instante
E não vê e não sente
Juntem-se a mim os desencaixados
Podem gritar, me demitir
A vagarosidade é minha rebeldia
***
Mil poemas inúteis
Úteis para evitar o vômito literal
Você chegou a perceber o meu olhar faiscante
por trás das lentes do óculos?
por trás das lentes do óculos?
Desculpa aí, mas não nasci pra ser mártir, não.
Nasci pra o prazer!
Que o caos reine livremente em meu lar.
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