Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.
Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.
Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.
Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.
Santa Clara, clareai.
Manuel Bandeira
quarta-feira, 20 de março de 2013
sábado, 9 de março de 2013
Elogio dos sonhos
Nos sonhos
eu pinto como Vermeer van Delft.
Falo grego fluente
e não só com os vivos.
Dirijo um carro
que me obedece.
Tenho talento,
escrevo grandes poemas.
Escuto vozes
não menos que os mais veneráveis santos.
Vocês se espantariam
com minha performance ao piano.
Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.
Ao cair do telhado
desço de manso na relva.
Respiro sem problema
debaixo d'água.
Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.
Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.
Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.
Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.
Faz alguns anos
vi dois sóis.
E anteontem um pinguim.
Com toda a clareza.
Wisława Szymborska
eu pinto como Vermeer van Delft.
Falo grego fluente
e não só com os vivos.
Dirijo um carro
que me obedece.
Tenho talento,
escrevo grandes poemas.
Escuto vozes
não menos que os mais veneráveis santos.
Vocês se espantariam
com minha performance ao piano.
Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.
Ao cair do telhado
desço de manso na relva.
Respiro sem problema
debaixo d'água.
Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.
Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.
Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.
Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.
Faz alguns anos
vi dois sóis.
E anteontem um pinguim.
Com toda a clareza.
Wisława Szymborska
quinta-feira, 7 de março de 2013
Fui descansar só um pouquinho, antes de retornar aos estudos, mas acabei quase cochilando. Eu estava naquele estado, quando ainda não se está realmente dormindo e a mente fica solta...então me veio uma imagem (que recordo porque logo em seguida despertei de vez com minha gatinha correndo), a seguinte: no interior de uma antiga igreja, havia uma estrela grande de ferro suspensa no teto por grossas correntes, e homens barbudos vestidos com túnicas (cada um de uma cor) empurravam as suas seis pontas, girando-a como uma roldana...
quarta-feira, 6 de março de 2013
natural noturna
meus pés descalços sentem as folhas,
a umidade da terra
meu corpo abandona as vestes
a luz que chega aos meus olhos
é das estrelas distantes.
os grilos quebram o silêncio
coruja me encara com olhos âmbar
também sou da floresta
animal selvagem
pura, sem adornos
cristalina, como o orvalho.
a umidade da terra
meu corpo abandona as vestes
a luz que chega aos meus olhos
é das estrelas distantes.
os grilos quebram o silêncio
coruja me encara com olhos âmbar
também sou da floresta
animal selvagem
pura, sem adornos
cristalina, como o orvalho.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Entre milhões de versos (completo)
e no final do dia a escuridão
entre milhões de versos imperfeitos
nesses versos sonhos e recordação
de momento e gestos nunca feitos
e ao meio dia vejo a luz do sol
dissipando as dúvidas perdidas
com milhões de flechas e nenhum farol
indicando o rumo de nossas vidas
e no final do dia vejo sol se pôr
entre milhões de árvores caídas
torres de concreto e elevador
embalando risos e feridas
e à meia noite a escuridão
libertando as rédeas da loucura
entre milhões de metáforas e ilusão
nessa intrincada arquitetura
entre milhões de versos imperfeitos
nesses versos sonhos e recordação
de momento e gestos nunca feitos
e ao meio dia vejo a luz do sol
dissipando as dúvidas perdidas
com milhões de flechas e nenhum farol
indicando o rumo de nossas vidas
e no final do dia vejo sol se pôr
entre milhões de árvores caídas
torres de concreto e elevador
embalando risos e feridas
e à meia noite a escuridão
libertando as rédeas da loucura
entre milhões de metáforas e ilusão
nessa intrincada arquitetura
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
sábado, 23 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Intenso brilho
O véu que protege a vida
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
Aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão.
.
Adélia Prado
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
Aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão.
.
Adélia Prado
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Parábola da Dor
Anoitecia,
a Dor saíra em busca
de um peito onde ficasse agasalhada.
Êxtase. Paz. Enlanguescida e fusca,
a luz do poente iluminava a estrada...
Depois de muito andar, à beira do caminho,
avistou um ancião, a meditar sozinho,
sobre uma pedra.
Aproximou-se e disse-lhe:
"Homem,
eu vaguei no mundo a procurar um peito amigo,
trago rotos os pés!
Por tua compaixão, dá-me um abrigo,
...eu sou a Dor...e tu, homem, quem és?"
E o homem, levantando a fronte encanecida,
respondeu:
"Sou filósofo, sou pobre,
e vivo a vida de pensar na vida.
Mas, se queres um abrigo
para o resto da vida que me sobre,
podes morar, podes viver comigo...
És igual, para mim, a qualquer bem terreno:
- se tens outro sabor, tens o mesmo veneno
que todos eles têm!
E eu tenho o viver já quase findo,
sem um dia glória e sem um dia
de prazer, acredito que a alegria
é uma maneira de sofrer sorrindo!...
Portanto, Dor, se queres um abrigo,
podes morar, podes viver comigo".
"...Não, disse a Dor, os pensamentos teus
são céticos demais, não fico - adeus!".
Parti,
Era já noite feita. A lua,
como a Vênus dos astros, seminua,
bailava na amplidão...
Não muito longe,
a Dor viu um mosteiro e, junto à porta
de entrada, um velho e solidário monge.
Mendigou-lhe pousada, e o religioso
acolheu-a dizendo:
" - Entra em meu peito,
Serei, trazendo-te comigo, venturoso
e, chorando por ti, serei perfeito!
Tu serás minha glória, minha cruz.
Jesus, o Mestre, te adorou. E um dia
foste a glória sublime de Jesus!...
Tenho meu peito aberto para te acolher,
bem sei, és-me uma glória imerecida:
- feliz daquele que encontrar na vida
uma oportunidade de sofrer!".
A Dor tudo escutava. E o franciscano
concluiu a dizer:
"Em ti, encontro
a divina razão de ser humano!".
"- Não, disse a Dor, os pensamentos teus
são divinos demais, não fico - adeus!".
E a Dor seguiu, a passo:
A claridade
da lua, pôde ver ao longe uma cidade.
Alcançou-a, depois de alguns momentos,
A cidade dormia. E a Dor, perdida,
foi pelas ruas, caminhando ao léu...
Afinal, encontrou numa avenida
um moço que, deitado sobre um banco,
de olhos serenos, contemplava o céu.
" - Jovem, eu sou a Dor, e vivo em busca
de um peito humano que me ceda abrigo.
Por esta noite, ao menos, dá que eu possa
ficar comigo".
" - O que estás a pedir-me, disse o jovem,
é um sacrifício para mim, no entanto,
meu coração de moço não resiste
à tristeza de alguém sem ficar triste,
nem poder ver alguém chorar, sem ter desejos
de lhe enxugar o pranto!
Se queres, pois, um agasalho, então,
um agasalho encontrarás
em meu coração!
Que me faças sofrer mesmo a todo momento,
unicamente anseio
à glória de ter sempre, em meio ao sofrimento,
uma frase que abrande o sofrimento alheio!".
E a Dor, emocionada, exclama, então:
" - Sublimes e humanos são os pensamentos teus!
E eu não conheço verbo que resuma
o que em frases simplíssimas exprimes.
Extraordinário jovem, tu és, em suma,
um corpo humano onde palpita um deus!
Concede, agora, que eu te beije os pés.
Que de teu peito, para mim aberto,
faça a minha morada predileta...
...E, todavia, inda não sei como és".
E o moço, erguendo para os céus o incerto
e vago olhar, responde:
"Eu sou poeta".
Ferreira Gullar, 1930.
a Dor saíra em busca
de um peito onde ficasse agasalhada.
Êxtase. Paz. Enlanguescida e fusca,
a luz do poente iluminava a estrada...
Depois de muito andar, à beira do caminho,
avistou um ancião, a meditar sozinho,
sobre uma pedra.
Aproximou-se e disse-lhe:
"Homem,
eu vaguei no mundo a procurar um peito amigo,
trago rotos os pés!
Por tua compaixão, dá-me um abrigo,
...eu sou a Dor...e tu, homem, quem és?"
E o homem, levantando a fronte encanecida,
respondeu:
"Sou filósofo, sou pobre,
e vivo a vida de pensar na vida.
Mas, se queres um abrigo
para o resto da vida que me sobre,
podes morar, podes viver comigo...
És igual, para mim, a qualquer bem terreno:
- se tens outro sabor, tens o mesmo veneno
que todos eles têm!
E eu tenho o viver já quase findo,
sem um dia glória e sem um dia
de prazer, acredito que a alegria
é uma maneira de sofrer sorrindo!...
Portanto, Dor, se queres um abrigo,
podes morar, podes viver comigo".
"...Não, disse a Dor, os pensamentos teus
são céticos demais, não fico - adeus!".
Parti,
Era já noite feita. A lua,
como a Vênus dos astros, seminua,
bailava na amplidão...
Não muito longe,
a Dor viu um mosteiro e, junto à porta
de entrada, um velho e solidário monge.
Mendigou-lhe pousada, e o religioso
acolheu-a dizendo:
" - Entra em meu peito,
Serei, trazendo-te comigo, venturoso
e, chorando por ti, serei perfeito!
Tu serás minha glória, minha cruz.
Jesus, o Mestre, te adorou. E um dia
foste a glória sublime de Jesus!...
Tenho meu peito aberto para te acolher,
bem sei, és-me uma glória imerecida:
- feliz daquele que encontrar na vida
uma oportunidade de sofrer!".
A Dor tudo escutava. E o franciscano
concluiu a dizer:
"Em ti, encontro
a divina razão de ser humano!".
"- Não, disse a Dor, os pensamentos teus
são divinos demais, não fico - adeus!".
E a Dor seguiu, a passo:
A claridade
da lua, pôde ver ao longe uma cidade.
Alcançou-a, depois de alguns momentos,
A cidade dormia. E a Dor, perdida,
foi pelas ruas, caminhando ao léu...
Afinal, encontrou numa avenida
um moço que, deitado sobre um banco,
de olhos serenos, contemplava o céu.
" - Jovem, eu sou a Dor, e vivo em busca
de um peito humano que me ceda abrigo.
Por esta noite, ao menos, dá que eu possa
ficar comigo".
" - O que estás a pedir-me, disse o jovem,
é um sacrifício para mim, no entanto,
meu coração de moço não resiste
à tristeza de alguém sem ficar triste,
nem poder ver alguém chorar, sem ter desejos
de lhe enxugar o pranto!
Se queres, pois, um agasalho, então,
um agasalho encontrarás
em meu coração!
Que me faças sofrer mesmo a todo momento,
unicamente anseio
à glória de ter sempre, em meio ao sofrimento,
uma frase que abrande o sofrimento alheio!".
E a Dor, emocionada, exclama, então:
" - Sublimes e humanos são os pensamentos teus!
E eu não conheço verbo que resuma
o que em frases simplíssimas exprimes.
Extraordinário jovem, tu és, em suma,
um corpo humano onde palpita um deus!
Concede, agora, que eu te beije os pés.
Que de teu peito, para mim aberto,
faça a minha morada predileta...
...E, todavia, inda não sei como és".
E o moço, erguendo para os céus o incerto
e vago olhar, responde:
"Eu sou poeta".
Ferreira Gullar, 1930.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Entre milhões de versos
e no final do dia a escuridão
entre milhões de versos imperfeitos
nesses versos sonhos e recordação
de momento e gestos nunca feitos
entre milhões de versos imperfeitos
nesses versos sonhos e recordação
de momento e gestos nunca feitos
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