domingo, 17 de fevereiro de 2013

Parábola da Dor

Anoitecia,
a Dor saíra em busca
de um peito onde ficasse agasalhada.

Êxtase. Paz. Enlanguescida e fusca,
a luz do poente iluminava a estrada...

Depois de muito andar, à beira do caminho,
avistou um ancião, a meditar sozinho,
sobre uma pedra.

Aproximou-se e disse-lhe:
"Homem,
eu vaguei no mundo a procurar um peito amigo,
trago rotos os pés!
Por tua compaixão, dá-me um abrigo,
...eu sou a Dor...e tu, homem, quem és?"

E o homem, levantando a fronte encanecida,
respondeu:

"Sou filósofo, sou pobre,
e vivo a vida de pensar na vida.
Mas, se queres um abrigo
para o resto da vida que me sobre,
podes morar, podes viver comigo...
És igual, para mim, a qualquer bem terreno:
- se tens outro sabor, tens o mesmo veneno
que todos eles têm!
E eu tenho o viver já quase findo,
sem um dia glória e sem um dia
de prazer, acredito que a alegria
é uma maneira de sofrer sorrindo!...

Portanto, Dor, se queres um abrigo,
podes morar, podes viver comigo".

"...Não, disse a Dor, os pensamentos teus
são céticos demais, não fico - adeus!".

Parti,
Era já noite feita. A lua,
como a Vênus dos astros, seminua,
bailava na amplidão...

Não muito longe,
a Dor viu um mosteiro e, junto à porta
de entrada, um velho e solidário monge.
Mendigou-lhe pousada, e o religioso
acolheu-a dizendo:

" - Entra em meu peito,
Serei, trazendo-te comigo, venturoso
e, chorando por ti, serei perfeito!
Tu serás minha glória, minha cruz.
Jesus, o Mestre, te adorou. E um dia
foste a glória sublime de Jesus!...

Tenho meu peito aberto para te acolher,
bem sei, és-me uma glória imerecida:
- feliz daquele que encontrar na vida
uma oportunidade de sofrer!".

A Dor tudo escutava. E o franciscano
concluiu a dizer:

"Em ti, encontro
a divina razão de ser humano!".

"- Não, disse a Dor, os pensamentos teus
são divinos demais, não fico - adeus!".

E a Dor seguiu, a passo:
A claridade
da lua, pôde ver ao longe uma cidade.
Alcançou-a, depois de alguns momentos,
A cidade dormia. E a Dor, perdida,
foi pelas ruas, caminhando ao léu...
Afinal, encontrou numa avenida
um moço que, deitado sobre um banco,
de olhos serenos, contemplava o céu.

" - Jovem, eu sou a Dor, e vivo em busca
de um peito humano que me ceda abrigo.
Por esta noite, ao menos, dá que eu possa
ficar comigo".

" - O que estás a pedir-me, disse o jovem,
é um sacrifício para mim, no entanto,
meu coração de moço não resiste
à tristeza de alguém sem ficar triste,
nem poder ver alguém chorar, sem ter desejos
de lhe enxugar o pranto!
Se queres, pois, um agasalho, então,
um agasalho encontrarás
em meu coração!

Que me faças sofrer mesmo a todo momento,
unicamente anseio
à glória de ter sempre, em meio ao sofrimento,
uma frase que abrande o sofrimento alheio!".

E a Dor, emocionada, exclama, então:
" - Sublimes e humanos são os pensamentos teus!
E eu não conheço verbo que resuma
o que em frases simplíssimas exprimes.
Extraordinário jovem, tu és, em suma,
um corpo humano onde palpita um deus!
Concede, agora, que eu te beije os pés.
Que de teu peito, para mim aberto,
faça a minha morada predileta...
...E, todavia, inda não sei como és".

E o moço, erguendo para os céus o incerto
e vago olhar, responde:
"Eu sou poeta".



Ferreira Gullar, 1930.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Entre milhões de versos

e no final do dia a escuridão
entre milhões de versos imperfeitos
nesses versos sonhos e recordação                   
de momento e gestos nunca feitos                           










terça-feira, 22 de janeiro de 2013

"nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa"

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

2013

2013 chegou,
mas queria ainda estar em 2012.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

fim

Talvez fosse até bom se o mundo realmente acabasse amanhã.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sentados tarde da noite, parece estranho não termos mais controle. Pequenos compartimentos já não são muito úteis. É estranho como a maré da força se retira para algum córrego seco. Sentados sozinhos, parece que fomos gastos (...) Acabou, estamos no fim. Mas espere -fiquei a noite toda sentado à espera -mais uma vez um impulso me perpassa; ergo-me, lanço para trás uma franja de alvos respingos; desabo na praia; não posso ser confinado. (...) e tomei café; coloquei meu chapéu, e saí para ganhar a vida. Depois da segunda-feira, vem a terça. 

Virginia Woolf, em As ondas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Se o mundo vai acabar
que importa escrevermos aqui,
qualquer segredo?
devíamos gritar tudo sobre as acácias floridas
no calor de meio dia
e sorrir

sábado, 10 de novembro de 2012

Chorar ao assistir os telejornais.
Ainda não sou insensível
às desgraças, aos outros banais.





terça-feira, 6 de novembro de 2012

Coragem

Relato de um sonho que tive há uns dias.
***
Estava na sala do meu apartamento, conversando no sofá com minha irmã e mãe, numa calma manhã.
Então mamãe comenta: -estão  acontecendo coisas estranhas ultimamente. Deve ter algum espírito ruim por aqui.
Pouco depois olho pro lado e vejo a minha bolsa que uso diariamente, que estava jogada no chão. Sua alça começa a levantar até suspender uns 50 cm a bolsa no ar, como se algo invisível estivesse erguendo-a. Eu levanto assustada, a tomo rapidamente e jogo no sofá, para interromper o que estava acontecendo. 
Em seguida, me volto em direção da porta de entrada e, mesmo com medo, digo em voz alta: -Quem tiver aqui, se for bom pode ficar, mas se for mau, vá embora e não volte mais. Nesse instante passa por mim uma rápida ventania, que faz a porta fechar, batendo com estrondo. Olho com assombro para minha irmã e mamãe, de caras espantadas no sofá, e vou determinada trancar a porta de chave. Parece que a fechadura entortou, e tive dificuldades em trancar definitivamente, ou talvez tenha sido somente por causa da minha mão trêmula. 
Voltei para a sala ainda nervosa, mas me sentido forte por ter conseguido agir, refletindo sobre o poder da palavra quando proferida.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

sol de meio dia

tantas voltas em torno de único tema

e eu...

continuo