segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Os cúmplices


Te dizia na carta
que juntar quatro versos
não era ter o passaporte para a felicidade
carimbado no bolso,
e outras coisas mais ou menos sérias
como te dando a entender
que desde antigamente sou tua cúmplice
quando baixas aos arsenais da noite
e pões toda tua alma
e tens a respiração
perfeitamente controlada,
para manter em pé tuas rebeliões
tuas milícias secretas
ao custo desse tempo perdido
em comer-te as unhas, em manter balizadas
tuas palpitações,
em golpear-te o peito por conta dos
pesadelos,
e não sei quantas coisas mais
que, francamente, te gastam a saúde
quando no fundo
sabes que estou contigo
embora não te veja
nem tome café da manhã em tua mesa
nem minha cabeça amanheça em teu peito
como uma criança com frio,
e isso
nem se precisa escrever.
 
 Delia Dominguez
 

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Convite à viagem

Quando iremos ao mar,

tu e eu, juntos e sós?,

quando poderemos ir ao mar?, poderemos?,

iremos algum dia tu e eu ao mar?

Não conheço a areia entre os teus dedos, 

nem o cheiro de protetor solar nos teus ombros,

não ouvi contigo o rumor das ondas 

e não beijei o sal nos nossos lábios. 

Não sei o que é ficar

calada, a teu lado, a olhar o horizonte.

Não vi o mar contigo.

Não sei o que é o mar.

 

Amalia Bautista